Dia de arrumação das minhas estantes. Uma bagunça total. Entre vários pacotes encontro um, bem antigo, amarelecido pelo tempo. Há muito desejo abri-lo, ver o que ele contém, mas sempre deixo para amanhã. E ele vai ficando ali, abandonado, naquele canto. Resolvo acabar de vez com o mistério. E rompo o barbante. Junto com outros e envelhecidos papéis, que me trazem boas e más recordações, dou com minha coleção de carteiras vazias de cigarro. Ela é do tempo em que os garotos ainda se preocupavam em colecionar essas coisas. Tampinhas de cerveja, pedras, selos, borboletas, botões, uma infinidade de manias que a televisão jogou pra escanteio. Eu, orgulhosamente, confesso: era um fanático colecionador de carteiras de cigarro ! Menino ainda herdei a coleção de um amigo, que veio enriquecer bastante a minha. Nela existiam marcas há muito desaparecidas, e, portanto, de “incalculável valor”. Volto a olhar aqueles retângulos de papel, cuidadosamente colados em folhas de papel, que um dia tanto representaram para mim. A primeira carteira da coleção é a “Severa”, lançada logo após o sucesso do fado de igual nome. Para ilustrá-la, um instrumento musical: a guitarra. A segunda, anunciando cigarros ovais, é a “Tentação”, que se constituía numa provocação para meus olhos de menino, fazendo-me pensar em coisas que não devia. Uma bonita mulher, semi-nua ( para a época, é claro ), soltando baforadas de fumaça, era a ilustração tentadora. “Supimpa” representava um gordo lusitano, de vastos bigodes e de argolão no dedo. Cigarros curtos e baratos. Linda e de bom gosto era a carteira dos “Virgínia Richmond”. “Monopólio Sabrati” trazia ilustração do Oriente, assim como os “Cigarros Turcos”, com seus inúmeros minaretes. Toda a coleção dos “Yolanda”, desde os “ovaes” ao que levava o número 222, o mais barato: 300 réis o maço. Algumas marcas lembravam pessoas e acontecimentos diversos. Como os cigarros “Fla-Flu” e “Leônidas”, estes últimos lançados em homenagem ao famoso jogador de futebol. Além de “Carnaval” e “Mossoró”, que levava o nome do cavalo que primeiro venceu o “Grande Prêmio Brasil”. O jogo do bicho ali também está representado. Para ele existia o “Palpite”, com o desenho de todos os animais, de 1 a 25. O “Monroe” tinha classe; o “Beira-Mar” mostrava uma banhista daquela época, com pouca coisa à mostra; o “Rosário”, não sei porque, era ilustrado por um diamante; os “Indianos”, por um pele-vermelha; o “Vale-Ouro”, por uma cornucópia, que espalhava moedas por cima da marca. Os cigarros “Monte-Carlo” vinham em embalagem que, segundo está impresso, é “privilegiada”. Diferente das demais, ela parece uma carteira de notas. Mil-réis custavam os “Vascaínos”, preferidos, possivelmente, pelos torcedores do clube da cruz-de-malta. “Sans Atout” era dos mais caros: 1.500 réis. E sua ilustração mostrava quatro homens de casaca, jogando cartas. Havia os batizados com números, como o “88”, o “17”, o “40”, o “3” e o “60”. “Meu Amor” mostrava uma mulher segurando um coração em chamas, onde ela, com olhar de desprezo, acendia o seu cigarro. Na minha ignorância de não fumante, não sei quantas dessas marcas ainda existem. Acredito que a maioria já saiu do mercado. Cada uma delas, no entanto, representou um momento feliz da minha meninice. Ganhei algumas, troquei outras, comprei várias. E venho guardando esse álbum, quase aos pedaços, por todos esses anos, sem querer destruí-lo. Não posso. Ele faz parte da minha vida. |