| As paredes continuam verdes. Ate pensei em trocar o tom, mas recebia telefonemas. Acabei botando anil na casa de quem me ligou pedindo ajuda. Fiz supermercado. Aproveitei pra almoçar lá. Lá nos outros lares. Lá longe do meu apartamento. Nunca consegui chamar de casa. Como nunca te falei que eu não gosto daquela manteiga. Você não quis notar. Eu nunca tomei o café da manha. Meu hd esta lotado de arquivo. E nenhum é ponto eu. As origens são múltiplas. Volta e meia eu pego um vírus. Coração ingênuo, sempre abrindo espaço pra quem chega. Um chega chegando, quando vejo, já estou constipada.
Quem fica constipada não pega gripe. Espirra com boa literatura nas mãos.
Quando leio um outro que não sou eu, lembro um tempo que não e meu, do qual sinto saudades. Pediram-me um currículo. O arquivo datava de trinta, quarenta ate cinqüenta anos atrás. Um tempo do onça, como se diz com coisa de trás. Um tempo em que todo mundo arranjava tempo. Um fulano que tinha um relógio de cuco e os pulsos livres para plantar seu sonho. A televisão, ele usava pra ver teatro ao vivo, com a família reunida, pra descansar da plantação. Saudade do tempo em que sujeito saia do comercial cantarolando jingle. A vida tinha mais bossa. Um tempo em que fulana saia pra comprar farinha. O lanche da tarde era um evento. Tomar sorvete na rua com o avo também. Alguém levanta pra botar novamente a musica que tocou no disco de vinil. Sempre quis fazer coleção do que eles ouviram e me contaram depois.
Minha tia conserva uma marca de catapora na testa. A mãe mandou não cocar.Vontade de ter feito escondido coisa inocente dessas. Deu vontade de ter minhas próprias saudades. |