Todo ano, quando chegam as festas judaicas, minha avó põe a célebre mão no peito e ao invés de cantar o hino nacional, começa: - Não vou agüentar, meu dedo não melhorou, esse ano não vou agüentar ir pra cozinha. - Perfeitamente, pensa a família, vamos encomendar a comida.Vendo que seu marido segue a tradição familiar e já aproxima a mão do peito para a próxima cena dramática, a nora, pau pra toda obra, vai a cata do telefone do moço que apronta todos os jantares para a comunidade. As vésperas de tomar todas as providências, recebe um telefonema da sogra, com uma voz de um resfriado que está só no começo, mas se alguém perguntar, ele vira uma pneumonia: - Ninguém vai passar fome. A empregada de minha filha vai me ajudar a preparar o jantar. Começa o jantar, vovó nem pensa em sentar e ai de quem entrar na cozinha. Passa o jantar todo falando que esse é o ultimo que faz, que dá muito trabalho e manda todo mundo sentar, ninguém levanta, a não ser, a moça que trabalha na casa da minha tia. Como nenhum dos netos podia levantar-se antes do terceiro prato (judeu que não repete o prato três vezes, para a mãe judia, não gostou da comida), constatou-se que a vovó havia antecipado sua herança. A única que aprendeu todos os segredos da cozinha judaica foi a empregada da titia e o cachorro que não sai daquela cozinha.
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