(tradução: antes do primeiro encontro, marque uma consulta oftalmológica) Antes dos pares perfeitos da vida, desde que mundo é mundo, alguém já bancava a casamenteira e apresentava pessoas para serem felizes para sempre. Como teclar com alguém horas pode me dar lesão por esforço repetitivo, resolvi recorrer ao velho caminho: procurei a tal casamenteira. Nos primeiros cinqüenta minutos, a jovem senhora ficou falando de si, como virou casamenteira, sua missão bacana de apresentar gente. Fiquei me perguntando se aquilo era terapia em grupo. No final, últimos cinco minutos, dei meu perfil: moço honesto que queira companheira, ponto. “Só isso”, ela retrucou’. “Você acha só ?” Recebi um telefonema no fim de semana falando que um moço cujo sobrenome era tal, que trabalhava na empresa tal, que morava no lugar tal ia me ligar. Não sabia se estava numa entrevista de RH ou numa tentativa de encontro. Deu um dia, moço me ligou falando que era da parte da dona fulana ( a casamenteira). Parecia estagiário de contabilidade entregando relatório fora do prazo pra chefe. Quebrei a formalidade e marcamos durante semana na porta do metrô. Estava escuro o que me impossibilitou de ver se me meteria em roubada. Como desconfio de algum parentesco italiano e não consigo dar nem um bom dia sem tocar a pessoa, quando o moço aproximou-se fui logo com um abraço. Camarada veio com aperto de mão. Nunca matei tanta mosca. Diante de um silêncio sepulcral, perguntei como veio a dança de salão em sua vida. A casamenteira me soprara que ele adorava dança de salão.. Mal andamos uma esquina, ouvi que foi a cura para um pé na bunda. “Então você curou o pé na bunda com dança de salão, que máximo!”. A rua compartilhou minha surpresa. Constrangido, retrucou: “você como psicóloga deveria saber que numa relação levamos um pé na bunda, mas também damos o pé na bunda”. Lancei mão de um caderninho e uma caneta para anotar o que deveria saber como terapeuta para minhas próximas consultas. Continuando, perguntou-me onde iríamos. Disse que gostaria de ficar perto do metrô e gostaria de comer uma pizza. Único lugar próximo dali era o supermercado Pão de Açúcar. No auge de tudo o que bolei de ideal de romantismo, me vi pegando os talheres com o caixa, pedindo a pizza no balcão enquanto moço ficava pensando na morte da bezerra sentado no canto a minha espera. Lembrei do Seu Almeida estendido no sofá batendo na quina da mesa pra dona Maria renovar a porção de salaminho pro segundo tempo do futebol. Ao voltar à mesa, sugeri um vinho. Quando fui informada com requintes de lirismo : “tive um piriri há dois dias, mas a pizza encaro”. A poesia não acabou. Prosseguindo no próximo verso, silenciou e apontou-me a sessão de vinhos, que eu fosse lá pegar meu vinho, que ele aguardava tranqüilo em seu banquinho. Lembrei novamente do Seu Almeida do sofá, já vendo o que me esperava no futuro, quando questionada se topava rachar mais uma pizza e se não quisesse , tinha problema não que ele “traçava”. Numa última esperança de tentar achar um ponto em comum localizado na cabeça da casamenteira, tentei o cinema. Ídolos: “ah, estou revendo Bergman”. Quando retrucou: “Me amarro em Bob Esponja”. “Paris”. “Disney”. Realmente não me imagino passando uma love story lambendo sorvete do Mickey. O golpe de misericórdia ocorreu quando comecei a ouvir a programação inteira do anima mundi e senhoras e crianças juntaram-se a nós pra conversar sobre o evento. O supermercado virou um chat de animamundi. Ao invés de palavras românticas, nunca os tomates, cebolas, iogurtes, manteigas, leites me chamaram tanta atenção. Até que fui acordada do meu sonho erótico com legumes pelo pedido de uma caneta para o cálculo minucioso da conta. Lua cheia lá fora, friozinho gostoso, programaço lembrar as operações fundamentais. Como não podemos passar nessa vida sem vivermos algumas coisas básicas, lembrei que nunca havia sofrido de dor de cabeça. Chegara a hora de experimentar a primeira enxaqueca, depois do primeiro sutiã, primeira transa. Moço seguiu para o metrô . Já estava bem escuro e pra mim estava bem claro. Precisava marcar um oftalmologista e refazer exame de vista. Nunca demorei tanto tempo para avistar o vocábulo “roubada”. |