Perguntaram como é que ela fazia para se desapaixonar? Vá ver um filme, pensou. Tem filme que foi feito pra ser visto uma única vez. Foi inventar reprise. Havia três dias, tinha deliciado-se com cada minuto-poesia da telona. Assistira ao filme na companhia de uma amiga, ou a sós, tanto faz, ou o que é o grande amigo se não parte de nós? Com a amiga, não deixou passar uma maestria do diretor de fotografia, um diálogo bem bolado, um olhar expansivo de ator. Tudo foi fotografado pelo raio x interno. Pegou a van para o trabalho aos prantos. Nenhuma chuva de lágrima avisa quando vai cair. Sai da frente que é fria. Ninguém vai entender nada dentro da van. Vão oferecer lencinho como o previsto. Adianta é nada. Ela cai de novo. Mas cada soluço de choro tinha seu mérito. Sentiu mais a presença de seu amor que não estava lá nos quatro cantos do filme. Não pare.. Não parou. Sentiu vontade de rever o filme junto de seu amor. Mal sabia que o amor já tinha ido embora. Tentaria um novamente daquela emoção. E desde quando a vida sabe o que é novamente? Só Grapete que a gente repete. Rumou. Dessa vez esteve muito ocupada com a reação de outros olhos. Olhos acanetados de crítica. Não conseguiu sentir uma cena daquelas. Teve problema de vista durante a sessão. Tinha óculos sobrando. Óculos de dentro que a gente usa pra se ver melhor. E algum apaixonado, dotado de ilusão, quer se ver melhor? O filme perdeu sua riqueza. E ver a arte rica decair é sinal de pobreza. Quando ver junto dásinal de menos, a vida pede pra gente refazer as contas. Naquele momento nuncafoi tão duro ser boa aluna em Matemática. Já não eram mais um casal.Teria que inventar nova trilha sonora. Música sem refrão. Que refrão todo mundo canta junto. Esse não mais. |